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POEMA RÉQUIEM

É SOBRE UMA CIDADE PAIXÃO

Clélio Silveira Filho
Por: Clélio Silveira Filho Fonte: Weliton Carvalho
19/06/2026 às 13h12

 



LITERATURA…..LITERALMENTE  

 

RÉQUIEM

 

Por Weliton Carvalho*

É SOBRE UMA CIDADE “PAIXÃO” 

 

a cidade está no homem

quase como a árvore voa

no pássaro que a deixa                                                            (Ferreira Gullar)

 

Ainda não repouso eterno, inteira luz e ebulição: sol abrasador e noite de todos os abismos azuis que me arrastam na vertigem feérica da infância.

 

Uma cidade – inventada e real – habita o menino desatando o arrastar alucinado do tempo e da vida.

 

Como no Gênesis, fez-se luz nas quintas e quintais e um leite espesso da manhã se espraiou em nuvens e tudo se fez encantamento imune à morte.  

 

Era preciso luz, mais luz, muita luz, Goethe

que as noites de Santa Inês eram da densidade do universo em seu princípio antes do verbo.

 

E em danação tudo se movia em desejo e busca: varejeiras, minhocas, mosquitos, os bichos todos, as coisas todas – que tudo era vida em festa que tudo era deslizamento da luz.

 

Tudo rugia feroz no azul zenindo de vida e sonho: Zeus era íntimo das dádivas todas ofertadas ao olhar (todos os deuses eram pagãos em algazarra).

 

Quintas e quintais, o mundo inteligível do Cosmo, onde sujeito e objeto catalisados em dínamo louco se lambuzavam na metafísica e na terra aos pés.

 

Santa Inês era o tudo envolto ao nada inexplicável, que o tudo e o nada sinônimos perfeitos do existir.

 

O tempo rasga a carne, os ossos, a alma, o infinito – a vida flutua em esferas intangíveis ao humano.

 

Homens e mulheres andando todos os dias ao sol em busca de caminhos na sanha de inventar a vida e Santa Inês a repetir a felicidade em miudezas que escorriam entre a lida e o olhar fatigado.

 

O grito do azul e o silêncio eram a gramática infantil: o silêncio se dissolvia no sax triste de Dico Moreno e a tuba de Joaquim Aranha fazia o azul gritar ao sol. 

 

E ainda flameja nas mãos do menino a cidade toda com todo o seu transbordar da beleza em carência e a carência tanta se resolvia em si a brotar a flor – flor de água, de vento, de brisa, de nada e azul.

 

Na tarde o carro de boi moendo a pressa do tempo e a brisa tal veludo acariciando a sesta das sombras: quintas e quintais ensinavam preguiça sem pecado e o prazer dos gregos (ainda ignorados) era fruição.

 

Pierre dentro da quitanda a sorver a vida no varejo entre sacos de farinha, açúcar, feijão e os aromas: havia uma palpitação louca de cheiros na quitanda – uma fragrância que entranhava na tarde, na alma.

 

A quitanda de Seu Zezico era solar, sem sombras, onde a alquimia se misturava ao movimento da vida à beira da calçada, palco de algazarra e o gritar do sol e não se via o soluçar das bananas morrendo devagar.

 

Na madrugada anônima o cão solitário latia triste – já era a poesia convocando o menino ao mistério e o mesmo fazia o galo no celebrar do novo dia.

 

No novo dia, Teteo ligeiro a entregar as notícias em letras do jornal que só diziam da realidade fria a deixar os homens taciturnos e alheios à magia que nos olhos do menino bailava à luz do dia.

 

O sol trazia o frêmito da rua Grande ao comércio para se inventar a vida entre negócios e consumo: indiferentes, riachos, manhãs e o nada fluíam que o mundo só existe nos espelhos esféricos.

 

Sempre o escorrer da vida nos olhos do menino por haver nas coisas outras coisas a se esconder no esconde-esconde por tudo revelar e se perder: mistério, palavra a nada decifrar e a tudo desejar, pois na busca reside o sentido do caminho.

 

Loucura, a liberdade fugindo dos limites da razão – essa a lição dos loucos dada ao sentido da arte: Doutor Adão a receitar catuaba a todos os males; Fartura a carregar consigo as bugigangas do mundo; D. Sabastiana a plantar a flor no urinol furado.

 

Os loucos foram os profetas do tempo do menino: Doutor Adão lhe ensinou rudimentos da hipocondria; Fartura a acumular livros, papéis e inutilidades outras; D. Sebastiana a lhe trazer o dadaísmo e arte conceitual.

(o urinol furado donde esplendia a flor era mais belo que o urinol impessoal e frio criado por Duchamp) – a poesia cria a sua teoria para depois a dissolver, que a arte arde no rebelde das esferas lúdicas.   

 

Por isso galinhas, patos, silêncio, brisa, folhas secas formavam uma sinfonia delirante com o lodo, o sol e o azul se derramando lírico-voraz rumo ao infinito (aqui o menino já ouvia a Pastoral de Beethoven)

 

Lembranças habitam a cidade por sobre as suas pedras que me veem como coice, bálsamo de insignificâncias: me chega à memória o Santim na sua esquálida figura,

a quem mamãe ofertou os sapatos de bico fino de papa (os sapatos por seu bico fino eram em si cômicos).

E Santim os recusou, mas não escapou da joça criada Dizia eu e minhas irmãs em engasgue de gargalhadas — Lá vai, lá vai, lá vai o Santim no sapato de Aladim!

— Lá vai, lá vai, lá vai o Santim no sapato de Aladim!

— No sapato de Aladim, lá vem, lá vem, o Santim!

— E agora vem, vem, Aladim no sapato do Santim!

— E agora, vem, vem Aladim no sapato do Santim!

 

No mês de junho era São João e São Pedro a reinar nas fogueiras a brilhar o mundo e aquecer as almas (canjica, arroz doce, mingau de milho, pamonha).

 

O brilho em febre vinha visitar a vida em festa: era o bumba meu boi do Lobato a rugir o canto (o bumba meu boi festeja um lamento

e rasga os olhos da tristeza). Os pandeirões a guarnecer a beleza ecumênica:o boi é dança, música, teatro, religião, folclore, entrelaçar de raças que formam um país inteiro – frenesi escarpado e macio própria da poesia. Balões colorindo a noite e a fogueira ardendo nos olhos do desejo em brasa junto ao singelo.

 

Depois a vida voltava ao encanto do prosaico

que a vida um milagre tão sutil quanto casual

e assim desliza como um noturno de Chopin.

 

Ao fim do dia o sol ia devagar beijando a lua,

a praça se acendia em relâmpagos de sonhos.

 

E Abraão Barros sentado no banco da praça 

pisava no pé do outro ao passar da moça bonita espichando os beiços numa exclamação cômica: — Vigia! Que tales?!  – e a moça era toda faceira. (e os meninos a imitar: — Que tales? Que tales?)

 

 No ritual da noite, as cadeiras à porta da rua

 – em farfalhar de vulgaridades encantadas –

e a noite se ia sem melancolia: amanhã seria igual (à noite o silêncio era o fantasma a assustar a vida). Ah, e quando vinha à cidade o circo mambembe?! o mundo se coloria cobrindo o rasgado da lona – que o sonho restaura o esgarçar do palpável.

 

E o palhaço perna de pau tão alto tão junto ao céu e o coral infantil a gritar: — Hoje tem espetáculo? — Tem sim, sinhô? — Tem sim, sinhô!, sim, sinhô (a vida é infinita no seu desatar inocente!)

 

Na noite mágica a trapezista de maiô brilhante mais que as estrelas por cima da lona furada; a sudorese e os motociclistas do globo de ouro; o palhaço a encantar entre ridículo e cômico; os leões, as onças, o elefante, o macaco prego – com eles meu reino seria o Império Romano (ali o circo de Soleil com encanto da carência)

 

Quando o circo se ia levando a bailarina 

ficavam as matinês do cine Art Palácio,

onde a poesia se fazia música e gestos:

– os festivais impregnados de beleza!

(Silveira, Gilberto, Lourival, Vicente:

eles não sabem, mas um menino magricela viu ali a poesia em canto no gris encantado daquelas manhãs).

 

Mas havia o lado sombrio e assustador da cidade: crimes de encomenda, emboscadas, brutalidade, o medo do menino do bando dos homens maus invadirem as quintas, os quintas, o castelo, o poço (toda a luta era pela água doce do poço viçoso já que o bando mau vinha de terras desérticas: do deserto do Texas, onde perseguiam Django).

 

Sonhei que cavaleiros invadiam quintas e quintais (eles usavam armaduras com uma cruz enorme): as cruzadas chegaram ao reino para impor a fé (nesse tempo minha mãe me levou à igreja).

 

Quando comecei a ir à missa com minha mãe, confesso que o ritual se revelou todo enigmático, mas uma frase na memória tal nódoa no mistério se fez latejar: — Direi uma palavra e serei salvo! (foi a autêntica versão da parábola do semeador): a palavra, mistério flamejante que dói e cintila, mas sobretudo flutua em imagem e delírio.

 

Mesmo convertido à fé o reino estava em perigo: os bárbaros já se faziam muitos contra o sonho. No entanto se isso acontecesse haveria solução: chamaria Django para derrotar os homens maus

e libertar as quintas, os quintais, os bichos, o poço.

 

Não havia ainda outra cidade dentro da cidade – a gemer vidas despedaçadas debaixo do sol: ali próximo do meu reino a fome se alastrava, outros meninos não podiam sonhar.

  

Essa questão social jamais chegou ao meu reino: dela comecei a desconfiar quando meus amigos não podiam ir ao Art Palácio domingo à tarde encontrar com Django a defender a liberdade.

 

Fato é que outros assuntos de governo urgiam: onde meu Rocinante ia comer no inverno? Como proteger o caramanchão do cupim?

 

E o carnaval se aproximava com seus fofões,

quando Valmir fazia suas máscaras horrendas (focinho de porco, tristes figuras macabras): nas fôrmas de barro voltava-se à origem do humano e de seus sonhos a inventar.

 

Valmir não podia ir ao clube brincar carnaval,

porque seu pai não era sócio: o clube da elite

(de novo a questão social sempre adiada)

 

Antes da questão social, a angústia metafísica: – veio a morte dizer que vigiava a vida – Então tudo um dia iria desaparecer do reino?: varejeiras, minhocas, mosquitos, os bichos todos, as coisas todas, a crosta de lodo ao lado do poço, Django, o Art Palácio, a brisa, o azul e a luz?

 

Foi em dezembro o ápice da crise metafisica,

exatamente no nascimento de Jesus, o salvador: eu e o brinquedo; os meninos e o abandono. Só podia ser culpa daquela data mal explicada, porque antes em outra tarde na rua da Raposa, quando meu pai ligou o trem de pilha a andar e nos trilhos apitar alto os meninos eram festa! (naquele dia meu pai antecipou o século XXI). 

 

Agora noto nessa conversa com o menino: 

num flash tal raio todo um reino se perdeu. 

 

O tempo rasga a carne, os ossos, a alma, o infinito – a vida flutua em esferas intangíveis ao humano – tudo grita dentro do menino em mistério e danação: mistério e danação singram o Atlântico se o menino acaso o atravessar. 

 

Então tudo se foi e tudo ficou no insolúvel da vida: a casa que não é mais da família, o poço entulhado de tantos desejos, de tanta memória, de tanto delírio que talvez nem a fala se faça linguagem, Lacan.

 

Tantos se encantaram: Dico Moreno e o sax triste; Joaquim Aranha em sua tumba e suas lamparinas; Seu Zeza e a bíblia; Abraão Barros e a exclamação!

 

E então o menino se indaga da solução para a dor que lateja na carne, nos ossos, na alma, no infinito: o réquiem talvez a devolver o passado aos mortos.

 

Não é próprio do réquiem sepultar a vida:

os mortos estão impregnados do eterno.



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